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O meu guia da Índia (sou viciado no Lonely Planet) começa assim “Are you realy, realy sure that you want to go to India?” Assustei-me mas não lhe dei muita importância. Uma vez regressado compreendo agora o porquê da questão. Na Índia tudo é diferente. A cor, as pessoas, o calor, os cheiros, as comidas, os monumentos, até o verde acho que é diferente… mais indiano. É um país que tem tanto de maravilhoso como de hostil; tanto de riqueza como de pobreza; tanto de atractivo como de repugnante. Uma coisa tem certamente, um encanto enorme para quem o descobre e está pronto para o embate cultural. O nosso destino era a província de Goa incluindo uma visita à mega cidade de Bombaim. Lá fomos. Lisboa para Zurich, de Zurich para Bombaim e de Bombaim para Goa. Ao cabo de mais de 30 horas aterramos em Goa com 34 graus centígrados, cansados mas cheios de expectativa. Estávamos finalmente na Índia. Não fomos decepcionados pelo lugar. Goa é um lugar incrível, com uma micro cultura indo-portuguesa, onde por vezes é difícil de discernir contornos de cada país e nos faz crer que o passado, longínquo, foi afinal só ontem. Vimos praias de encantar, mercados de mil cores, igrejas de santos conhecidos (S. António, S. Francisco Xavier…), templos hindus carregados de uma espiritualidade distante mas por isso também mais fascinante e conhecemos pessoas de apelidos familiares: o recepcionista Sr. Domingos e o nosso sempre prestável condutor Ribeiro. Á noite provava-mos os petiscos do lugar: Xacuti e Cafreal, Caris e Massalas. Tudo muito picante (por vezes até de mais), mas gostoso e não menos interessante. Já em jeito de regresso, fizemos uma paragem em Bombaim e foi aqui que melhor percebi a questão inicial do meu guia. A Índia mostra-se no seu esplendor. O pior (barracas e milhares de famílias a viver nas ruas, detentoras de uma miséria citadina não humana) mas também o melhor (palácios dignos de Marajás, monumentos emblemáticos e templos místicos). A Índia no seu contraste permanente, e o rubro de uma massa humana impar. Deixamos Bombaim para fazer todo o percurso inverso, primeiro Zurich e finalmente Lisboa, onde esperava-mos aterrar umas quantas horas depois e seguramente de rastos. De regresso ao aeroporto internacional de Bombaim e apenas a algumas horas de deixar este mundo de contrastes que é o sub-continente indiano, olhava pela janela do carro e enquanto via a grande marginal da Cidade de Bombaim e o reflexo brilhante das luzes no mar quente do Índico, percebi que afinal não se tratava do fim mas antes do início de uma grande descoberta que tenciono continuar. (Texto e foto publicados no suplemento Fugas, Público em 4 de Outubro).